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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

VAI NA FÉ


Samara só não estranha ainda mais o lugar para se encontrarem porque já ia se acostumando com a ideia. Afinal o Hip-Hop estava em toda parte. Entra na igreja vazia e o encontra sentado, em silêncio, no último banco.
            – Rezando?
            Ela pergunta fazendo sua voz ecoar por toda a capela.
            – Estou observando aquelas duas velas no altar.
            – Pra mim são velas comuns o que elas têm de especial?
            – repare que o vento quase apaga a chama daquela ali que está mais próxima da janela.
            – Sim, e daí?
            – Viu a diferença entre elas?
            – Hum! São idênticas, mas uma está maior que a outra.
            – Sim. A vela que luta pra manter sua chama acesa gasta menos cera. A adversidade a torna mais forte e resistente, esta força dos fracos é o Hip-Hop.
            – Não sabia que você tinha uma religião.
            – E eu não tenho.
            – Não tem? Pensei que o seu lado gospel mantivesse você junto das religiões protestantes.
            – Quanto a isso tem toda razão. Amo muito os irmãos que me utilizam para aproximar as pessoas de Deus. Mas em nosso país, aprendemos a respeitar as muitas crenças. No lugar dessas diferenças gerarem guerras santas e intolerância, criamos o sincretismo religioso. Que é a fusão e o diálogo entre as diferentes religiões. Isso tem tudo a ver comigo, que também sou muitas misturas.

            “Já viram de tudo,
            Menos amor e sossego
            No berço da violência
            Crescem sem fé e com medo”
            (Ao Cubo)

            – Há outras religiões com que você se identifica?
            – Sim, as religiões de matrizes africanas como o Candomblé e a Umbanda, por exemplo. Têm muita da cultura negra e da resistência africana que tanto valorizo. Estou nas mesquitas muçulmanas.

            “Há Malês nessa vida que só vem pro nosso bem”
            (Periáfricania)

            Também estou nas igrejas católicas e até no Vaticano já fui me encontrar com o Papa. Nas sinagogas judaicas...
            – E eu – interrompeu Samara – “Só não consigo poupar que nem judeu” (DBS & a Quadrilha).
            – Eu estou falando sério.
            – Tá bom, viajei. De quais grupos gospel você gosta da mensagem?
            – Muitos deles, como DJ Alpiste, Ao Cubo, Provérbio X, Mano Reco, Cezinha, 3 D, Apocalipse 16 do grande Pregador Luo. “Vixe! É muita Treta” (APC 16).
            – Então pra você qualquer forma de expressão tá valendo?
            – Tenho consciência que existe quem faça dos púlpitos daí igreja seu trampolim para uma carreira com público fiel, se você me permite o trocadilho. Mas não cabe a mim, só Ele pode julgar quem é quem.

(Agradecemos a generosidade de Toni C. por permitir a publicação desse texto).


Fonte: Toni C. O hip-hop está morto: a história do Hip-Hop no Brasil. São Paulo: edição do autor, 2012. p.101-102.

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